domingo, 5 de fevereiro de 2023

A História do Deus Desconhecido ou Agnostos Theos.

O deus desconhecido ou Agnostos Theos (em grego clássico: Ἄγνωστος Θεός) é uma teoria de Eduard Norden publicada pela primeira vez em 1913, que propõe, com base no discurso do Areópago do apóstolo cristão "Paulo em Atos 17,23", que além dos doze deuses principais e das inúmeras divindades menores, os gregos antigos adoravam uma divindade que eles chamavam de "Agnostos Theos", ou seja: "Deus Desconhecido", que Norden chamou de "Não Grego". Em Atenas, havia um templo especificamente dedicado a esse deus e muitas vezes os atenienses juravam "em nome do Deus Desconhecido" (Νὴ τὸν Ἄγνωστον, Agnoston). Apolodoro, Filóstrato  e Pausânias escreveram sobre o deus desconhecido também.

A obra

A obra está dividida em duas porções distintas e desiguais, sendo a primeira (p. 1-140) sobre o discurso de Paulo em Atenas, enquanto a segunda (p. 143-308) trata da investigação sobre a forma de oração e sobre Deus.

Na primeira parte, há uma discussão da autoria e fontes do Discurso de Areópago. A segunda parte traz a origem e significado do termo Agnostos Theos, além da história estilística da oração. Segundo seus estudos lexicográficos, o surgimento do termo não remontaria a um passado helênico, tendo se originado de outro povo. Há também uma examinação do modo como as divindades são referidas nas orações, com uma visão sobre a descoberta de testes formais que separariam elementos gregos e orientais nas escritas do Cristianismo e outras religiões sincréticas. Junto a isso, foi notada pelo autor a presença de um artigo em palavras escritas por hebreus em grego, ou que foram traduzidas do hebreu para o grego no particípio, remontando à investigação da origem do termo Agnostos Theos. A última parte (p. 311-387) são os apêndices, que tratam da composição dos Atos e a história de Apolônio. 

Atenas e a história do “ Deus desconhecido” – Fundo Histórico

Conta-se que no ano de 600 a.C. uma praga letal caiu sobre Atenas. Corpos insepultos estavam por todo lado. O povo estava enlutado e atônito. Os sacrifícios expiatórios dedicados a muitos deuses gregos eram inúteis.

Os principais sábios atenienses que buscavam explicações para a realidade do mundo estavam confusos. Apenas diziam que algum deus ficou enfurecido com o crime praticado pelo rei Megacles e decidiu puni-los com a praga.

O rei obtivera a rendição dos seguidores de Cilon (Cilón era um ambicioso nobre ateniense, genro do tirano de Mégara, Teágenes, que veio a ser nomeado arconte e pensou que poderia aplicar o mesmo sistema político em sua cidade Atenas.) Com uma promessa de anistia, depois violou sua própria palavra e os matou.

Esta era então a resposta mais apropriada para justificar a mortandade que acometeu a lendária cidade dos deuses.

Sem mais opção mandaram um navio a Cnossos, na ilha de Creta, para buscar um homem chamado Epimênides. Alguns acreditavam que ele conhecia a divindade ofendida, saberia como apaziguá-la e, portanto, poderia livrar Atenas do caos da morte.

Então comissionaram um grupo para ir à procura do profeta de Creta. O possível salvador não recusou o apelo dos gregos. E logo partiu, quando aquele homem chegou a cidade, admirou-se com o vasto número de deuses.

Alguém lhe disse que em Atenas era mais fácil encontrar um deus do que um homem.

Entre tantos destacavam-se Zeus, Poseidon, Deméter, Héstia, e tantos outros. Tantos deuses e todos totalmente impotentes diante de tamanho problema que devastava a cidade.

Epimênides, após acercar-se dos fatos, no momento e local determinado, exigiu um rebanho de ovelhas saudáveis, um grupo de pedreiros e matérias necessários para edificar um altar. As ovelhas precisavam ficar em jejum para que na manhã do sacrifício estivessem totalmente famintas.

Seu Deus escolheria os animais para o sacrifício. Esse seria o sinal de sua escolha e aprovação: as ovelhas seriam soltas no pasto verdejante e aquelas que, mesmo famintas, se deitassem sobre a grama em vez de comerem-na, teriam a preferência para o holocausto.

Dito e feito. O Deus do referido profeta fez a escolha deixando os expectadores atônitos, perplexos.

Quando os altares foram edificados, um ancião perguntou qual seria o nome da divindade que ficaria neles gravado. Afinal, a população de Atenas ficara famosa por sua diversidade de deuses; era uma colecionadora de deuses.

Mas no passado nomear um deus equivalia de certo modo atrai-lo ou a possui-lo.

Epimênides, profeta monoteísta, explicou que não conhecia o nome do Deus a quem servia, Isto é curioso: o profeta servia apenas um único Deus e sequer sabia o nome dele.

Mas de uma coisa tinha certeza: aquele Deus não é um ser qualquer nem estava representado por qualquer ídolo de Atenas.

E ainda acrescentou que o ser divino que decidiu auxilia-los, mesmo não tendo no momento e naquele lugar um nome pelo qual pudesse ser chamado, entendia a ignorância da população e que, por não o conhecer, seria incapaz de lhe dar um nome condizente.

Decidiram anotar a palavra agnosto Theo – a um deus desconhecido, em cada altar. O “Deus desconhecido” que fossem gravadas tais palavras, pois após o holocausto a praga cessou.

Bastaram apenas poucos dias para que ficasse evidente o milagre.

Os doentes sararam, não haviam mais contaminações, e Atenas, como nunca dantes encheu-se de louvor e gratidão ao Deus desconhecido.

Colocaram flores nos altares, declararam sua manifestação de agradecimento, mas o milagre pode empolgar pessoas durante algum tempo, todavia não produz devoção duradoura. Bartimeu foi diferente, ele provou do milagre e ainda foi salvo!

Atenas se esqueceu da benção do Deus desconhecido, deixou que vândalos irreverentes demolissem os altares usados para o sacrifício. Restou apenas uma estátua esculpida de Epimênides que foi colocada diante de seus vários templos.

O povo ingrato voltou a cultuar seus deuses que, na tragédia, que não fizeram nada para ajuda-los .

A história do Deus desconhecido não desapareceu por completo porque dois anciãos piedosos contrataram pedreiros para restaurar e polir um dos altares que continham a antiga inscrição: agnosto Theo.

Na esperança de que um dia o Deus desconhecido se manifestaria novamente, deixaram um registro autêntico do milagre que possivelmente salvou a “religiosa” Atenas do extermínio.

Paulo em Atenas

De acordo com o livro de Atos, contido no Novo Testamento cristão, quando o apóstolo Paulo visitou Atenas, ele viu um altar com uma inscrição dedicada a esse deus (possivelmente ligada ao caso ciloniano) e, quando convidado a falar à elite ateniense do Areópago, proferiu o seguinte discurso:

Atos 17, 22-31: 22 Paulo ficou no meio do Areópago e disse: “Vocês, homens de Atenas, percebo que são muito religiosos em todas as coisas. 23 Pois, enquanto eu passava adiante e observei os objetos de sua adoração, encontrei também um altar com esta inscrição: 'A UM DEUS DESCONHECIDO'. O que, portanto, você adora na ignorância, isto eu anuncio a você. 24 O Deus que fez o mundo e todas as coisas nele, ele, sendo o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos com as mãos, 25 nem é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de alguma coisa, visto que ele próprio dá a toda vida e respiração, e todas as coisas. 26 Ele fez de um sangue toda nação de homens para habitar em toda a superfície da terra, tendo determinado as estações designadas e os limites de suas habitações, 27 para que procurassem o Senhor, se talvez pudessem alcançá-lo e encontrar ele, embora ele não esteja longe de cada um de nós. 28 Porque nele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser. Como alguns de seus próprios poetas disseram: 'Porque também somos filhos dele'. 29 Sendo então descendentes de Deus, não devemos pensar que a Natureza Divina é como ouro, prata ou pedra, gravada pela arte e design do homem.30 Os tempos de ignorância, portanto, Deus negligenciaram. Mas agora ele ordena que todas as pessoas em todos os lugares se arrependam, 31 porque ele designou um dia em que julgará o mundo em justiça pelo homem a quem ele ordenou; dos quais deu segurança a todos os homens, na medida em que o ressuscitou dentre os mortos. ”

Como o Deus judaico não poderia ser nomeado, é possível que os ouvintes atenienses de Paulo considerassem seu Deus "o deus desconhecido por excelência". Seus ouvintes também podem ter entendido a introdução de um novo deus por alusões a Os Eumenides de Ésquilo ; a ironia seria que, assim como os Eumenides não eram deuses novos, mas as Erínias em uma nova forma, o Deus cristão também não era um deus novo, mas o deus que os gregos já adoravam como o Deus Desconhecido. Seu público também teria reconhecido as citações no versículo 28 como provenientes de Epimênides e Arato, respectivamente.


Arqueologia

Altar para o deus desconhecido.

Há um altar dedicado ao Deus desconhecido encontrado em 1820 no Monte Palatino de Roma. Ele contém uma inscrição em latim que diz:

SEI·DEO·SEI·DEIVAE·SAC

G·SEXTIVOS·C·F·CALVINVSPR

DE·SENATI·SENTENTIA

RESTITVIT 

Que poderia ser traduzido para o português como: "Para um deus ou uma deusa sagrada, Caius Sextius Calvinus, filho de Gaius, pretor por ordem do Senado, restaurou isso".


Fonte: nfoquebiblico, wikiwand, i2.wp, google

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